45 minutos de preliminares

Por carmen

“Na semana passada, começo de bafo quente na capital paulista, fomos a um canto (ainda) remoto de Pinheiros – com uma vibe gostosa de praia – pra comer espetinhos e beber cerveja razoável a R$10 (coisa rara, coisa difícil de achar por aqueles lados). Éramos um grupo de amigas: duas em um relacionamento heterossexual estável, uma bissexual sem rumo certo, duas lésbicas. Papo vai, papo vem, até que começamos a relatar, uma a uma, as experiências bizarras, divertidas, loucas, maravilhosas. Um pouco nessa ordem.

Samara começou. ‘Gente, sério, infelizmente meu único beijo com uma mulher foi horrível.’ A brincadeira se dava em tentar descobrir quem era a interlocutora do beijo, já que era conhecida do grupo de amigas. ‘A língua dela era dura, agitada demais, num ritmo muito estável, não tinha dinâmica, foi estranho.’ Decidiram que ela beijaria, ali mesmo, Luana, a bissexual sem rumo. ‘Vem cá, Samara. A gente tira isso a limpo agora. Onde já se viu seu único beijo lésbico não ter sido menos que incrível?’ Já tinham tomado umas seis garrafas de Serra Malte aquelas duas, enquanto a outra metade da mesa bebericava Stella Artois. A cerveja mais encorpada deu o efeito desejado: se beijaram. Luana, aposto, fez o serviço completo, porque Samara, um tanto enebriada, acabou confessando que batia umas siriricas pensando nela. Quem viu tudo de camarote, ali, entre espetos e potinhos de vinagrete e farofa, ficou rindo pra esconder o tesão revelado pela umidade em excesso na calcinha, dando gritinhos de torcida, meio bobas, meio envergonhadas.

 

lésbicas
Crédito da foto Pinterest

 

Na vez da Danuza, a contação de histórias foi elevada a outro patamar: ‘Uma vez, namorei uma garota que era hétero. Aliás, ela foi a única das minhas ex-namoradas que, um, era hétero, dois, que não se manteve minha amiga – acho que tem a ver com a cultura da possessividade, tão forte entre heterossexuais. Trabalhamos juntas em uma grande empresa e eu não tinha a menor ideia de quem era o quê. Imagine, ambiente corporativo, anos 2008, pouca gente fora do armário. E gay-radar, pra mim, não funciona muito. Na festa da firma de fim de ano, ficamos. Bêbadas, claro. Porque festa de firma só se sai da linha com muita bebida – e olhe lá. Acabamos tendo um affair que durou dois anos. Ela não tinha coragem de deixar o marido, dizia que gostava do cara, que tinham boas transas, que ele era tranquilo. Aquela coisa morna, cujos casais héteros suportam por anos e, talvez toda uma vida. Mas as única coisa que ela reclamava do cara era: preliminares. O cara não sabia o que era isso, ela dizia. Eu, que nunca tive esse desprazer, só sabia do que preliminares significava no meu mundo. E as preliminares eram, são e sempre serão um ingrediente absolutamente básico e necessário e parte e integrante de uma transa lésbica.’

Ficamos com a respiração suspensa. Cada uma com sua mente vagando e pensando em todas as preliminares e, pior, as não-preliminares que tivemos até ali. Danuza nos conduziu a caminhos explícitos e implícitos. Falou em linguagem erótica e, mais adiante, pornográfica. Nos levou até onde nossa mente poderia nos proporcionar experimentos de sexo grupal telepático à mesa daquele bar ornado com luzinhas com a mesa já transformada em cemitério de espeto. Dávamos gritinhos, como adolescentes no cio. Falamos daquela cena de 7 minutos de sexo lésbico em Azul É a Cor Mais Quente.

‘Não existia ainda o Whatsapp pra gente mandar nudes ou imagens picantes. E mandar fotos pelo e-mail era impensável. O que a gente vasculhava eram páginas eróticas, com compilações maravilhosas de posições de sexo lésbico. Cada uma indicava a sua url preferida e a gente ficava horas na frente do computador, em plena terça-feira pós-expediente lá em casa, navegando. Eu fazia uma pausa, ia até a bancada da minha cozinha americana, fritava uns rolinhos-primavera comprados na Liberdade, abria um vinho branco na temperatura que a geladeirinha tipo adega climatizada mantinha, e ia por trás dela, massageando aquelas costas, começando pela nuca, passando pelas costas, chegando até a lombar. Desabotoava a camisa, tirava a calça dela, massageava aquela bunda perfeita, ao custo de muita drenagem, ornada por um fio-dental da melhor qualidade. Girava aquele corpo pra mim, beijava aquela boca, passava a mão levemente naquela buceta saliente, esbarrava na lingueta interna, haha, lingueta era o nome que eu dava praquele clitóris gigante que eu, particularmente, adorava. O fato de ser enorme me ajudava muito: o prazer que aquela garota tinha só de eu passar por ali, sem muito esforço, era uma coisa louca. Eu ficava excitada só com isso. E seguia. Agora o ar condicionado da minha sala estava ligado. Nada de passar calor ou frio, tudo na temperatura certa. E o som certo também: Patti Smith, PJ Harvey, Jane Gainsbourg, para os momentos mais picantes.’

A gente não se conformava. Eram tantos os detalhes! Era um caminho sem volta. Um caminho para o sexo dos sexos. E quanto tempo durava esse melô até que vocês se penetrassem, a gente perguntou, finalmente.

’45 minutos, marcados no cronômetro.'”