#mandanude e o estado “natural” das coisas

Por xdesexo

Por Rebeca

 

 

Eu não sei se é uma coisa de gente “jovem” ou se eu, mesmo estando abaixo dos 40 anos, não pequei a onda no decorrer dela, mas o fato é que nunca participei nem sabia que existia o #mandanude até pouco tempo atrás. Ignorância minha nas redes sociais talvez, mas, também, haja velocidade para acompanhar tantas hashtags e curtições do momento. (Breve parêntese: na minha época de mais jovem, a “curtição do momento” durava um Carnaval ou um verão inteiro; hoje pode não durar mais que um dia).

 

 

O estardalhaço das fotos vazadas de Stênio Garcia e sua mulher pelados nem são o cerne desse post, até porque eles não MANDARAM o nude. Mas o caso levantou o debate, psicólogas defenderam em reportagem da Folha que não há problema em mandar nude para um peguete, um paquera, que o problema na verdade é vazá-lo na internet.

 

 

O #mandanude também foi alvo de polêmica recente em que se meteu a revista “Tpm” no Facebook. No dia 21 de setembro, a revista fez um post pedindo para o público mandar nudes para uma edição sobre sexo e tecnologia. No texto: “Vamos publicar as selfies desnudas enviadas por leitores e leitoras maiores de 18 anos e entusiastas da safadeza caseira e do ‘meu corpo, minhas regras’. Tire a roupa, se fotografe no ângulo que você mais gosta (recomendamos deixar o rosto de fora) e bora espalhar seus nudes por esse mundão”.

 

 

Bem, não demorou minutos para que leitores irados enviassem comentários ainda mais irados. Foi uma enxurrada de cartas revoltadas, que fizeram com a revista pedisse desculpas e se explicasse um pouco mais: “A edição e o #mandanude têm outro objetivo: abordar, discutir e questionar esse fenômeno espalhado pelas redes sociais e aplicativos, disponibilizando um espaço editorial para homens e mulheres, maiores de 18 anos, exercitarem a autonomia e a infinita diversidade de seus corpos.”

 

 

Eu, particularmente, não estou a fim de mandar nude para ninguém. Que graça tem você ver o corpo antes de conhecê-lo pessoalmente? A não ser que sejam fotos que mais escondem do que mostram, fazendo jogo sensual –mas daí não é n-u-d-e. Para mim, no instante em que uma coisa se torna banal, corriqueira, ela perde sua sensualidade. É como sentir tesão nos peitos de uma mãe amamentando em público. É um recado que ele me dá mais ou menos assim: esse peito não está aqui para servir ao sexo, ser acariciado e lambido por línguas adultas, mas para alimentar um ser humano recém-nascido. E é aqui que quero chegar, quando falo “estado natural das coisas” no título do post. Você se excitaria, homem ou mulher, ao receber um nude do cara de pau mole?

 

 

Eu confesso que nunca recebi nude, nem de pau mole nem de pau duro. Mas, se o #mandanude tem conotação da pegação, de sensualidade, faz sentido o pau estar mole? O pau estar mole parece o peito da mãe amamentando: não está pronto para a função sexual que o #mandanude pode denotar (mesmo que o peito não tenha seu estado “mole” e seu estado “duro”, um peito de fora com um bebê por perto é equivalente a um pau mole). E eu ouvi isso de alguns amigos gays, e amigos de amigos, já que eles trocam frequentemente nudes pelo Whatsapp. A mensagem pelo aplicativo é: “Oi, bom dia –e em seguida a foto daquele pauzão duro e avantajado”. Sim, é um belo bom dia!!

 

 

Mas esses amigos gays e algumas amigas se mostraram revoltados com a moda do nude mole. Que moda é essa? Uma mulher pelada, peitos e buceta de fora, em seu estado natural, está igual como se estivesse pronta para o sexo ou não. O homem é diferente. E a indústria sexual –em revistas pornôs e revistas de homem pelado, gibi-novela, filmes e mais filmes– nunca permitiu que um homem revelasse sua identidade secreta: o pau mole. Até porque tem aquele lance do cavalo (o animal): muitas vezes um pau mole minúsculo está escondido em algum lugar subterrâneo e, quando fica duro, vira uma coisa gigantesca. Mas você só quer ver a coisa gigantesca. (Claro que também tem aqueles paus moles grandes que são daquele tamanho duros e pronto).

 

 

Eis que a moda (não a pornô) se voltou aos nudes masculinos em estado natural. O “Guardian” tratou recentemente do assunto, com uma reportagem que enunciava: “A moda achou uma nova obsessão: nus masculinos, especificamente com os pênis para fora”. O texto fala do estilista Rick Owens que “causou” ao colocar na passarela modelos em roupas com um buraco na direção da genitália. Owens defende em linhas gerais que manter o pênis enclausurado lhe dá mais poder do que ele realmente tem. É a naturalização do que, em outros tempos, sempre foi erótico.

 

 

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Modelo de Rick Owens na passarela. Foto: PIXELFORMULA/SIPA/REX

 

 

O texto também fala da capa da revista “Man Abou Town” que trouxe um modelo pelado e de pau mole. O redator-chefe, Ben Reardon, defende: não era para ser especificamente chocante ou erótico, apenas honesto.

 

 

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A capa da “Man About Town”. Foto: Alasdair McLellan

 

 

Bem, é desse tipo de “honestidade” que estão fugindo as amigas e amigos gays que recebem frequentemente nude pelo celular. Se é justamente para não parecer erótico, por que eu quero ver o pau? Voltando, é como o peito da mãe que amamenta em público. O fato é que está rolando uma deserotização do corpo, como mostrou também a campanha Mamilo Livre, da fotógrafa Julia Rodrigues, que defende que “os mamilos não são inerentemente sexuais”.

 

 

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Imagem da campanha Mamilo Livre. Foto: Julia Rodrigues

 

 

Antes que alguém me entenda mal, esse post não se trata de defender necessariamente a erotização do corpo (que é legal, em seu devido lugar e momento), mas de mostrar o que anda rolando por aí. As pessoas que tanto xingaram o post da “Tpm” no Facebook são aquelas que, muitas vezes, defendem o corpo como um lugar sagrado, intocável e que deve ser protegido. Não acho que precise de tanta defesa do corpo. Ao pé da letra, o mamilo é tão parte da gente quanto o cotovelo. Daí que eu me pergunto: banalizar o nu (mostrando-o publicamente) torna o corpo menos sensual? Sim e não.

 

 

“Sim” naquele exato momento: é como não ter tesão no peito da mãe amamentando em público –ela não está erotizando aquele ato. E “não” porque acredito que o sensual, o erótico, tem seu lugar para acontecer, se a pessoa ajuda na insinuação e de acordo com a cabeça de quem vê aquele nu. Por exemplo, o nu masculino de pau mole, apesar das reclamações dos amigos e amigas, pode ser sensual se ele vem com essa carga sensual. A sensualidade não passa apenas por quem se mostra, mas também por quem vê (o que ela pensa naquela hora e o tamanho da sua imaginação, para por exemplo pensar no pau quando ele ficar duro).

 

 

Acho que estamos vendo só o começo de uma nova revolução sexual. E, com certeza, vamos voltar a tratar desse assunto aqui no blog. Se puder, nos ajude com comentários ou relatos por e-mail. Vamos colocar a discussão na roda.