G. de sexo – parte final

Por xdesexo

A terceira e última parte da trilogia do nosso leitor Robin. Divirtam-se!

Leia aqui a primeira parte e aqui a segunda parte.

 

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Crédito suckmypixxel.tumblr.com
Crédito suckmypixxel.tumblr.com

 

Sempre fui de dormir pouco, mesmo passando noites em claro. Naquele domingo não foi diferente e, após cerca de duas horas de sono, deparei-me com um bilhete que, à primeira vista, pareceu-me apenas inusitado. Sorri ao ler as letras garranchadas: “Obrigada pela noite maravilhosa. Vocês foram incríveis. Saio daqui uma mulher diferente daquela que chegou ontem. Mais feliz, realizada! Beijos, cheios de gozo. G.”.

 

 

Deixei o bilhete sobre a mesa e fui tomar um banho, sentindo no cansaço do corpo e no torpor da mente os resquícios de uma noite lancinante.

 

 

Saíramos do cine pornô na alta madrugada, quando o céu paulistano mescla à permanência da poluição diurna os traços de resistência de uma natureza que quer se mostrar. O táxi nos deixou na avenida São João e chegamos ao bar com a sede de anteontem, como cantou o velho Chico. Apesar do cheiro de lenço umedecido, era porra que exalava do corpo de G., de modo que a luxúria a que nos entregáramos pouco antes não era apenas uma lembrança, mas a marca de nossa própria existência.

 

 

Bebemos a primeira, a segunda, muitas cervejas. Enquanto conversávamos, G. se extasiava em beijar e ser beijada por mim e por R., esfregando nossos paus sob a mesa e sentido a alternância de nossos dedos em sua buceta. Particularmente, sempre gostei de sentir o gozo de uma mulher em minhas mãos, desfrutando seus sabores e cheiros. Naquela brincadeira de beija, morde e esfrega, vimos o dia clarear e lançar novos convites aos nossos corpos. “Vamos pra casa”, propôs R.

 

 

Avenida São Luís, apartamento de meu amigo R. Se antes de sairmos do bar o tesão ainda nos animava para mais uma etapa daquela meia-maratona sexual, o breve percurso de táxi nos arrefeceu os ânimos. Tiramos nossas roupas, deitamos os três na cama e iniciamos uma brincadeira preliminar, eu chupando o cu de G., ela recebendo em sua boca a pica de R. Extasiados, talvez pelo sexo, provavelmente pela bebida, dormimos sem que percebêssemos. Eram cerca de 9h quando saí do banho e liguei para G. Atendeu-me a caixa postal de seu celular.

 

 

Passaram-se 15 dias até que eu recebesse o primeiro retorno do recado que lhe deixara. Por email, G. reafirmava o agradecimento daquele bilhete: “Sinto-me outra mulher”, dizia. Mas em seguida declarava: “O que aconteceu em São Paulo vai me marcar para o resto da minha vida. Mas não posso me orgulhar de algo que terei de ocultar de todas as pessoas que estão ao meu redor. O que dizer na universidade, na família, para meu filho? Nada. Essas coisas não podem ser ditas.” Concordei, ciente de que, mais do que um tabu, sexualidade e práticas sexuais marcam fronteiras de pertencimento.

 

 

Respondi a ela, também por e-mail: “Ao ler sua mensagem, lembrei-me de uma personagem que o Mia Couto define como um ‘afinador de silêncios’. Concordo que é preciso silenciar sobre o que fizemos, afinar como silêncio todos aqueles sons, aqueles urros e gemidos. Mas será que só é digno de existência aquilo que pode ser dito?”. A resposta foi taxativa: “Não posso viver com aquilo sobre o que não posso falar”. E depois disso, silêncio. Nem recados, nem e-mail. G., assim como acontecera a mais de dezessete anos, partira novamente.

 

 

Até que nos reencontramos acidentalmente, passados cerca de dois meses, numa feira literária no interior de São Paulo. Visivelmente constrangida, G. apresenta-me seu marido, o mesmo para o qual se calara ao longo de anos de um casamento monótono, do qual ela saíra para satisfazer seus desejos. E naquele momento foi inevitável pensar, novamente, no valor do silêncio e nas escolhas que fazemos sobre o que silenciamos.

 

 

Não sei se foi a satisfação daqueles desejos que ocultara durante anos que a levou de volta ao marido, à vida que levara anteriormente. Não sei se, pelo contrário, foi por vergonha, por remorso ou arrependimento. Prefiro guardar na lembrança –da memória e do bilhete– aquela frase de satisfação: “Saio daqui uma mulher (…) mais feliz, realizada”.

 

 

E, na dúvida sobre se a satisfação de um desejo nos leva à sublimação ou a outro desejo, deixo a pergunta: e você, que silêncios você tem afinado?