Ode ao pornô

Por xdesexo

Por Diana

A noite ia tarde, mas ainda não era madrugada, quando comecei a ler este blog pela primeira vez. Rebeca, colega, amiga, irmã, me convidara a escrever aqui dias antes, e eu aceitei antes mesmo de checar o conteúdo. Quando me sentei -logo antes da madrugada- para esmiuçar XdeSexo, não foi, portanto, levada por inspiração nem excitação, e não fechei as enormes janelas de vidro do meu quarto, que exibem com fúria total a cama, a mesa, o closet, e meus movimentos para a cidade lá fora. O que, é óbvio, foi uma estupidez. Em dez minutos ou menos (quem está contando?) estava molhada, entretida, perdida entre as coxas de Lia, Ana e suas palavras, com a mão instintivamente colocada entre as minhas próprias coxas, e provavelmente dois ou três vizinhos acompanhando tudo do outro lado da rua. Só despertei do transe com o alarme de incêndio: além das janelas abertas, eu também esqueci de desligar o fogão, queimei tudo o que preparava e precisei explicar ao porteiro que não, não era fogo e ele podia já cancelar o chamado aos bombeiros.

 

Eu sempre gostei de pornografia. Ainda adolescente, muito antes de começar a transar, descobri certos livros (se é que posso chamá-los assim) no quarto de hóspedes da casa de uma tia, onde minha mãe me obrigava a ir a reuniões de família profundamente entediantes. Pois bem, nunca mais precisei ser convencida. Passava as tardes no quarto de hóspedes, mergulhada naquele tipo de pornografia barata que precedeu a pornografia (também barata, mas com ares de fina) de livros como 50 Tons de Cinza. Não ousava ainda me tocar. Se minha mãe abrisse a porta, me encontraria lendo placidamente, como uma estudada cara de paisagem que jamais denotaria as pulsões que sentia por baixo da calça jeans. Mas eu chegava a decorar passagens, e as repetia mentalmente, como um mantra, nas ocasiões mais impróprias.

 

O primeiro filme pornô foi uma atividade conjunta. Uma amiga do time de vôlei nos convidou a visitar sua casa, que não coincidentemente estava vazia, e roubou uma fita VHS do irmão para assistirmos, embasbacadas, a nossas primeiras imagens de sexo explícito. Ninguém falou, ninguém se tocou, ninguém se beijou, mas ficamos ali, as quatro, vidradas no videocassete, por pelo menos uma hora e meia. Desde então, vejo filmes pornô algumas vezes por semana. Certa vez, minha irmã me emprestou um video que disse ser “pornô para mulheres”: “não é aquele bate-estaca. Tem mais história, é mais delicado”, afirmou. Desculpe, irmã, mas não gostei. Pornô, para mim, é pornô. Não estou atrás de história, não me interessa como os personagens se conheceram e se seduziram, e só aguento 30 ou 40 segundos de lenga-lenga. Quando eu vou atrás de pornô, quero imagens, quero sexo explícito. Tenho preferências, claro. Não sou muito fã de amadores – gosto de vídeos produzidos, com atores bonitos, de preferência ménage, talvez um gang-bang, quem sabe um swing. Me acendo com a visão dos corpos nus, dos closes nas lambidas, penetrações, dos dedos em todos os orifícios, das estocadas firmes.

 

Nunca mais vi uma hora e meia de pornô, como fizemos na casa da minha amiga do time de vôlei. Em geral em um minuto e meio já gozei, e depois de relaxar naquela lentidão gostosa, desligo o filme, me levanto para limpar os fluidos que me lambuzam, e continuo com o meu dia. Pornô é um ótimo intervalo de trabalho.

 

Curiosamente, de todos os meus namorados, apenas um topou assistir comigo. Mas não durou muito. O video escolhido era um ménage com duas mulheres e um homem, todos lindos, em uma casa de praia iluminada pelo sol. Sofisticado para o padrão dos pornôs de internet, mas sem enrolação. Nos deitamos nus com o computador na cama, e eu comecei a acariciar sua virilha enquanto as duas mulheres na tela lambiam lentamente o corpo do parceiro. Eu sabia que essa era uma fantasia dele (nenhuma originalidade, mas vá lá), e enquanto a língua das atrizes subia pelas pernas do cara, comecei a provocá-lo com sussurros, narrando como seria nossa transa a três. Eu ia sugerindo enquanto minha mão circundava seu pênis, e também comecei a introduzir os dedos dele na minha vagina molhada. A brincadeira levou talvez quatro minutos, quando ele se ergueu, afastou o lap top, agarrou meus cabelos, e guiou minha boca até sua ereção. Eu continuei com a narração da nossa futura sacanagem, sugerindo o que cada uma de nós, eu e a outra imaginária, faríamos com ele. Nessa noite ele transou só com minha língua e minhas mãos – o prazer, para mim, foi essa leve tortura. Pulso de novo ao lembrar das reações do meu ex-namorado, de seu corpo contorcido, dos gemidos nada discretos.

 

Não repetimos a dose – não sei dizer o motivo, talvez porque tínhamos ainda muitas outras fantasias a explorar. Também não fizemos aquele ménage. Nossa relação não se abriu para isso, apesar de a fantasia ser recíproca. Mas o maior mistério, para mim, é a negativa, ou talvez falta de ação, de todos os outros namorados, que não se empolgaram com a minha sugestão. “Eu não quero que a minha namorada saiba que tipo de pornô me excita”, me explicou um amigo. “Não quero que ela pense que está sendo comparada a ninguém, nem que me veja excitado ao ver desconhecidas transando”. Entendo, mas não muito. Queridos, nós sabemos que vocês assistem pornô e se excitam com desconhecidas, talvez muito diferentes de nós, transando. Nós também nos excitamos. Porque não compartilhar isso?

 

Será que existe ainda alguma dúvida sobre a atração de mulheres pela pornografia? Se existe, deixo bem claro aqui: nós gostamos, muito. Assistimos com frequência. Quer vocês topem levar o pornô para nossa cama ou não, continuaremos a assistir sozinhas, e provavelmente gozaremos mais rápido do que com as suas chupadas. É claro que todo consenso é burro, mas me atrevo a dizer que o pornô, se não obrigatório, é um “cult de massa” entre mulheres. Não tem nada a ver com a nossa transa. Pornô é como fazer ginástica. Necessário, mas esquecido imediatamente após o gozo, que é seu objetivo primordial. Nossa transa, ao contrário, é desejada antes de ser necessária. O peso do seu corpo em cima do meu é incomparável. Não dou para gozar. Dou para provar, para me entregar, para te torturar, e se ambos buscamos meu orgasmo, ele é o ápice, mas não é o objetivo. O seu também não é, ainda que eu não descanse enquanto ele não for despejado sobre mim.

 

Pornô é pornô, repito. Meu jantar queimou e os bombeiros foram acionados pela pornografia que encontrei neste blog. Sim, ele é pornográfico, e tudo bem. A pornografia é aceita por todo mundo? Abertamente, é claro que não. Tanto é assim que, apesar de discutirmos o assunto, preferimos continuar escondidas por trás de pseudônimos. Vou voltar a essa discussão mais tarde. Mas não agora. Neste momento, eu continuo pulsando, e preciso ir ali fechar as enormes janelas do meu quarto para ver um certo vídeo que me espera.