Quando confundimos obsessão por paixão ou algo assim

Por Folha

POR ANA

 

Na semana passada recebemos o desabafo de um leitor por conta do post dos Não amores. Ele batizou seu texto como “A não paixão” e, embora não vamos publicá-la pois assim nos foi pedido, achei perfeito como uma introdução para falar dessa (não é masculino?) tensão que todos sentimos por alguém no momento errado: quando estamos felizmente comprometidos.

 

Nosso leitor, dentro de toda a confusão mental pela que estava passando por uma vontade louca para se sentir mais perto daquela outra mulher, tinha uma coisa clara para si: amava sua namorada. E não só isso: estava convencido de que não queria traí-la.

 

Quantas vezes não aconteceu isso com vocês? Quantas vezes não começaram um novo emprego –ou alguém novo que entrou no escritório e, de repente, começam a prestar uma atenção especial nele ou nela.

 

Começa com um olhar, uma piada e um sorriso e continua com contatos visuais furtivos até se tornar uma obsessão que você acredita que é mútua. Se você não estivesse comprometido seria tudo mais fácil. Você iria a tomar um café com ele ou ela, conheceria seus encantos, seus pontos fracos e avaliaria o sex appeal dos pés à cabeça. Sem pressão. Provavelmente acabasse na cama, sem arrependimento nenhum, e se não dessa certo, fim da história.

 

Mas quando você namora, todo esse processo é proibido e se abre ante você a porta de um enorme loop obsessivo que não dá para fechar com a chave da culpa. Se sente incapaz de evitar olhares ou parar de se sentir vulnerável diante daquela presença. E desejaria apenas uma noite para comprovar se todo aquele desejo vai embora ou conferir se ELA é a pessoa.

 

Vivi tantas vezes esta história que já aprendi a segurar a onda profissionalmente. Talvez por isso acho que é questão de paciência –e treinamento– deixar o tempo passar até que a visão da pessoa desejada se torne clara e saudável.

 

De todas as quase-cagadas que já vivi neste assunto, lembrei de uma específica na hora que lia o email do leitor. Era meu professor de francês. Minha vontade de terminar de aprender a língua me levou a assistir três vezes por semana uma aula intensiva de três horas. Lembro aquele primeiro dia quando ele abriu a porta e eu pensei que estava tendo uma visão. Aquele cara alto, bonito, com estilo e sorridente me convidando a entrar em uma sala para poder começar… “Merci, merci”, eu orei.

 

Os dias passaram e eu comecei a sentir como ficava molhada nas aulas. Além de ser um ótimo professor, era inteligente e dava para perceber nossa conexão. Eu estava louca para passar uma noite com ele.

 

Ele era casado e eu quase. E, não, não estava afim de criar uma confusão de tal magnitude. Comecei a segurar a onda quando me senti bem perto do precipício e ficava roxa com qualquer comentário dele.

 

Não sei bem como passei a tratar ele como um cara normal, mas, convencida de não querer dar um passo em falso, qualquer coisa me servia para humanizar “aquele deus francês caído do céu apenas para meu prazer”. Para facilitar a história: ele arrotava, bebia demais, e ficava de mau humor quando não dormia. Meus três apoios para me convencer de que ELE não era o cara.

 

Lembro uma vez que, superada a obsessão, nos encontramos os dois, com nossos pares ao lado, na rua. Fiquei sem graça e não fui capaz de pronunciar uma palavra, mas conferi como tinha pulado uma etapa.

 

Pelo contrário, e com efeito retardado, meu namorado me perguntou como eu não tinha falado antes que meu professor era um Jonnhy Deep fortão e charmoso.

 

Imaginem minha resposta….