Como deve ser difícil ser homem

Por X de Sexo

por Ana

 

Crédito: Folhapress
Crédito: Folhapress

 

Confesso que eu nunca quis ser homem. E agora, que pesquisas, comentários surreais, comerciais sexistas “não autorizados” no rádio e a moda dos encoxamentos chegaram ao meu Facebook, muito menos. Imagino como é difícil ser vocês, homens.

 

Deve ser um desafio sair na rua e se conter quando todas essas coxas saem a mostra ao chegar da primavera, entrar no metrô e sentir os peitos de uma mulher roçando no seu cotovelo, olhar com inocência uma menina saindo da escola de uniforme. Que desafio, queridos, isso de manter a distância, e respeitar essas mulheres como vocês gostariam que respeitassem suas irmãs ou mães.

 

Ao contrário, ser mulher é fácil demais.

 

Para estrear um vestido, apenas tenho que me olhar 20 vezes no espelho fiscalizando potenciais transparências, convencer aos homens que me querem que não posso subordinar minha forma de vestir a quem me olha na rua, e mesmo assim, considerar, um por um, os ‘pedaços de carne’ que aparecem entre as roupas.

 

Ir de metrô é uma diversão. Lutar pelos cantos dos vagões quando nem consigo me manter na ponta dos pés é algo inspirador. Tento também ir, todo fim de semana, à balada, pois me encanto quando alguém gosta de mim e me persegue por todo o local, agarra meu braço e me obriga a acabar com a distância mínima que eu preciso para respirar. Normalmente esse tipo de homem é aquele que vai me fascinar com um papo arrebatador, claro.

 

É ótima também a relação que mantenho com alguns amigos dos meus pais, que aproveitam os encontros familiares para me abraçar apalpando cada um dos meus relevos ou me beijando na ponta dos lábios, como se fossem incapazes de manter o desejo dentro da calça. Me faz sentir tão plena, que não me importo que não estejam nem aí para o que eu tenha que falar.

 

É lindo também ter saudades de alguns desses amigos que sumiram depois que eu reclamei de suas perseguições. As lembranças deles escrutinando meus peitos, esperando todo mundo sair para tentar me beijar ou do doce som da sua mão batendo minha bunda… Ah, que coisa gostosa.

 

Como é bom também o dia a dia, quando seu chefe faz menção ao seu decote questionando sua idoneidadepara fazer determinada coisa. Ou a cumplicidade dos (e das) colegas, que sempre questionarão que seu relativo êxito dependeu da sua ‘afinidade’ com esses mesmos chefes.

 

E que dizer dos taxistas e a segurança que eles são capazes de te transmitir quando olham você às escondidas pelo espelho durante toda a corrida? E que me dizem desses sites construtivos demais que animam a estuprar feministas ou mulheres em geral, porque “são todas umas putas”, e que as instituições públicas responsáveis demoram meses em tirar do ar? O que faríamos sem esses vídeos de estupros rolando na internet e sem essas imagens de mulheres decapitadas com honrosas justificativas nas legendas?

 

Pena que não me importe que me considerem “fácil” por transar na primeira noite. Se fosse assim, aí teria o pacote completo da felicidade.

 

Tomara algum dia eu não precise mais destes fetiches bobos para continuar amando ser mulher.

 

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Abaixo, linkamos uma galeria bem bacana que a Folha publicou hoje, de leitores que se manifestaram. Aqui, reportagem com relatos de leitoras que se sentiram encorajadas em denunciar o abuso. Que ninguém que sofra com isso se cale é o que desejamos.

 

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