Elogio, cantada ou agressão?

Por X de Sexo

por Lia

 

Confesso que não sou dessas mulheres que mandam para o inferno quando são cantadas na rua por se sentirem agredidas ou afrontadas. Pelo contrário, não me irrita (ou não me irritava).

 

Mulheres que eu chamo (ou chamava) de feministas exageradas, que apregoam em todas as redes sociais como é desrespeitoso alguém falar um “nossa, mas você é linda” no meio da rua me cansam (ou me cansavam). Quando percebo a mania daquelas que repetem que não querem saber o que pensam delas o motoqueiro, padeiro, segurança, peão, coxinha, policial, vendedor de jornais, garçom ou o contemplador da vida, em geral eu bocejo (ou bocejava).

 

As três últimas prisões de homens nesta semana -e as 15 no decorrer do ano- por se esfregarem em mulheres no metrô de São Paulo me fizeram repensar toda esta preguiça que eu sentia com esses papos que pareciam desejar tornar-nos invisíveis.

 

Um dos homens foi preso por ejacular na perna de uma mulher dentro de um vagão. Como o “trem estava muito cheio, não aguentei”, se limitou a dizer o cara, segundo jornais. Na casa dos seus 20 e poucos anos, aparentemente instruído, como assim “não aguentei”? Até cachorro aguenta o xixi antes de um passeio. Quem não aguenta é criança começando a sair da fralda.

 

E esse marmanjo é um dos únicos que pode ficar preso e ser condenado. O entendimento é que, no caso dele, houve agressão Lógico, visto que a mulher foi atendida no hospital com uma luxação no braço, e só por isso!

 

Outros dois assinarão um chamado termo circunstanciado e devem ser, no máximo, condenados a trabalho voluntário, pois filmar as partes íntimas de uma mulher (o ato de um dos loucos) ou passar a mão na coxa de outra (a cretinice do segundo) é considerado, no Brasil, “crime de menor potencial ofensivo”.

 

Apesar de minha consciência achar injusto que uns paguem pelo erro dos outros, tem pesado mais na minha balança o fato de que prefiro que nenhuma mulher receba elogios para poupar outras de passarem pelas situações descritas acima.

 

Eu, que sempre achei que cantada poderia sim ser elogio, não acho mais. Vocês, queridos homens, perderam (ao menos por enquanto) uma defensora do direito da liberdade de expressar sua admiração pela beleza da transeunte.

 

Estamos nós aqui, duas mulheres falando de sexo abertamente, de poréns da vida moderna sem medir palavras, de conquistas que consideramos ter obtido. Fazemos ode ao fato de termos nos concedido a permissão de ter prazer com quem e onde bem entendemos. E isso pode não ser visto como avanço, mas como provocação?

 

Mas, como assim, uma mulher corre o risco de ser vista como provocadora por causa de uma roupa curta? Pois foi o que indicou uma enquete com internautas em um grande portal, que perguntou qual é a melhor forma de evitar assédio no metrô. A maioria indicou “usar roupas menos ousadas”.

 

Você, querido homem que mancha o que tantos outros respeitam, acha que tem o direito sobre o outro até esse ponto? Acha que mulheres devem ser segregadas em vagões exclusivos?

 

Vocês que nos elogiam com educação, mais do que as mulheres que lutam pelo seu direito de serem mulheres, deveriam ir às ruas para evitar que esses homens-monstros continuem a propagar esse machismo por aí.