Os ‘não amores’

Por X de Sexo

por Ana

 

Os não amores são capazes de segurar você durante horas na frente de uma tela, de conseguir uma resposta imediata e cuidadosa a um e-mail, de inspirar o envio de uma melodia garimpada dentre cem listas de reprodução. Com eles, você fala de livros, de música, até de poesia.

 

Eles são capazes de acabar com um matrimônio.

 

O engraçado dos não amores, apesar de parecer o contrário, é que você não acaba na cama com eles. Em algum momento, isso acaba por ser o menos importante.

 

Os não amores aparecem por coincidência, no trabalho ou em uma viagem. A aproximação com eles não é a habitual de macho-fêmea, é uma aproximação de pessoas. Interessadas uma na outra, além da genitália.

 

As conversas começam a surgir e não terminam. Você acaba por acordar de manhã pensando onde ele ou ela está, aguardando uma mensagem na tela do telefone.

 

Ele nunca se enquadrou no perfil de pessoa da sua vida, mas ele ou ela te escuta. As conversas chegam aonde seu parceiro nem sonha e se tornam tão comprometedoras que você pode se considerar tão infiel que resolve desativar o aviso de chegada dos e-mails -que àquela altura já são dezenas por dia. A tela não pisca mais, mas você procura a cada hora na pasta destinada às suas conversas.

 

Na verdade, você não faz nada além de cultivar um amigo, oras. Mas os padrões, e as amigas, te dizem que você está indo longe demais. Que bater papo às 3h da manhã para se consolar pelo rumo que está tomando a humanidade não é algo assim, digamos, comum entre amigos.

 

não amores mais perigosos, os que você vê habitualmente. Ou todos os dias. O que acelera as revoluções do ‘não romance’ e a vontade de por um nome a esse conceito vago entre amizade e atração -digamos- espiritual (não, não é realmente apenas sexual). Esses dois personagens acabam ficando a sós em algum lugar, e acontece o batismo.

 

Chegados a esse ponto, onde cada um pode experimentar diversas sensações, que vão da frustração, arrependimento ou vontade incontornável de criar uma nova família, o parceiro ou parceira já está lendo seus e-mails. Imperdoáveis.

 

Fale a “verdade”, que não houve sexo. Minta e diga que nunca nada aconteceu. Não importa. A traição com um ‘não amor’ dói muito mais que qualquer punheta mal feita.

 

Nos seus e-mails estará exposta sua vontade de viajar com ele (ou com ela), os medos que você nunca compartilhou com outra pessoa, as inseguranças (mas também os sonhos) daquilo que você nunca fez. As reflexões que, há tempo, sumiram das conversas do seu relacionamento.

 

Ele provavelmente não entenderá como essa traição é pior que noites de tesão resolvidas em um motel. Ela, arrisco a afirmar, entenderá perfeitamente a dimensão do significado e dificilmente perdoará. Também assumirá que pecou e, não descartem, que acabe nos braços do ‘não amor’.

 

Eu já tive dois desses. No primeiro os dois estávamos comprometidos, chegamos a pensar que nos amávamos, mas nunca aconteceu nada além de cafés de manhã clandestinos e milhares de e-mails. Sua mulher o pegou e apesar dos anos nunca lhe perdoou. Ele ainda tem que manter nossa amizade (muito mais transparente e clara que na época) em segredo. O outro foi um não amor adolescente, que me disse francamente que deixaria tudo por mim, mas que não seria meu amigo se eu não aceitasse.

 

Saí correndo. O não amor é isso mesmo.