X de Sexo

A cama é de todos

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Blog fala de sexo a partir de histórias do dia a dia, narra experiências reais e conta com a colaboração de leitores. É produzido de forma anônima.

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Me bata que eu gosto

Por X de Sexo

por Ana

 

A primeira vez que entre os meus lençóis soou uma bofetada, foi na cara do que, meses depois, seria meu namorado durante anos. Eu não pensei, mas parti a cara dele cheia de prazer. E sobre tudo, de raiva, por ter me feito sentir aquilo que nunca tinha experimentado: gozei aos gritos pela primeira vez.

 

E quis castigá-lo por ter me deixado vulnerável.

 

Ele ficou lá, pasmado, meio sem graça, e, segundo ele confessou depois, a minha ousadia não teve atrativo nenhum. Deve ter doído porque eu ainda lembro do som daquela palma aberta no rosto dele. É justo falar também que, no fundo dos fundos, ele se sentiu SIM atraído por aquele instinto violento que pouco tinha a ver com minha manicure de patricinha.

 

Em geral, os tapas soam na minha bunda. Embora tente fugir dos preconceitos, acho que o rosto só deve ser tocado em algumas ocasiões, dado que até com a cumplicidade dos amantes mais safados, o gesto pode ficar esquisito. Já me aconteceu.

 

Uma amiga que me escreve do Líbano assegura que tem algo de excêntrico enxergar a pele avermelhada. “Pessoalmente gosto tanto de parar para observar as marcas do biquini quando volto da praia como para olhar a marca impressa no meu corpo dos dedos de uma mão”, detalha. “Tem alguma coisa excentricamente bela. São como marcas de guerra.”

 

Ela gosta de avaliar as marcas dela. Passar os dedos lentamente pela zona ainda irritada enquanto sorri lembrando o momento exato em que apareceu lá. Ela, que prefere que a agarrem pelo pescoço, não é muito fã dos tapas, exceto por uma coisa: o som. “Plas, plas, plas”.

 

No meio do caos de uma pegada excessiva, selvagem e imprevisível, esse ritmo coloca um ponto de ordem, marca a respiração. “Plas, plas, plas”.

 

“O seguinte será sentir um corpo banhado em suor caindo sobre o seu; dois peitos compassados que dificilmente conseguem respirar enquanto riem satisfeitos”. Minha pele fica arrepiada sempre que leio o que esta amiga escreve.

 

Reconheço que outra vez tentei repetir o efeito daquela palma aberta com alguém que me fez gritar demais. Mas não entenderam. Por que bate em mim se está gostando?, devem se perguntar. Também não costumam sentirem-se cômodos batendo em você, devem imaginar que fazem com força demais. A última coisa que eles querem é que, depois de levar você na cama e te comer, que você goste e que agradeça, eles te deem uma tapa que estrague todo. Eles não arriscam, e você se aguenta.

 

Ou pede….

 

Mas a última vez que sugeri um pouco mais de ímpeto recebi uma resposta que me provocou uma gargalhada. “Por que você não tenta?”, convidei convencida de que ele estava desejando aquilo tanto como eu. A resposta foi soberba: eu nunca o fiz, acho violento.

 

Ri ainda mais. Como assim? Há meia hora que você me embeste como se fosse um animal selvagem, e isso não te parece violento? Ele fechou o assunto com seu silêncio.

 

Por que a violência faz parte do sexo? Acredito que tem muito a ver com esse sentimento de dominação que ainda inspira em demasia nossos encontros sexuais, fruto talvez do consumo indiscriminado de pornô durante gerações.

 

Mas por outro lado, não é mais que uma sensação física. Todos identificamos alguma dor com o prazer. E quanto maior é o grado de prazer, maior é a intensidade de dor que um precisa para contrastá-lo. Para mim, essa dor é uma mão que me leva até o precipício, mas que me prende antes de cair ao vazio, que me salva da perda de controle.

 

Para minha amiga “libanesa” é, talvez por questões óbvias, uma questão de guerra. “Que jogue a primeira pedra quem nunca mostrou a cicatriz de uma caída em bicicleta ou na moto, a pele deformada que mostra onde se fechou alguma intervenção cirúrgica. A vida (e o sexo) é uma batalha e sobreviver a ela nos faz ficar orgulhosos. Por isso gostamos das marcas, porque lembram que somos nós, e não qualquer um, quem esteve lá”.

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